Tem uma regra no manual da marca que eu recito de cabeça hoje e violei sem perceber pelo menos quatro vezes em um mês: todo termo tem que vir de ciência de campo ou de burocracia institucional. Nunca de fantasia. Se soa como pedra mágica, ginásio, insígnia ou mestre, está errado. Se soa como algo que um laboratório ou um arquivo diria, está certo.

Parece simples escrito assim. Na prática, é a regra mais fácil de quebrar do projeto inteiro, porque o cérebro que passou anos jogando esse gênero de jogo quer, por reflexo, a palavra "poção" ou "insígnia" ou "mestre". Eu escrevo essas palavras no rascunho e só depois pergunto se elas passam no teste.

Erro 1: inverti o item mais importante do jogo

Em algum ponto eu escrevi, com convicção, que o FRASCO ZERO era o item inicial — o equivalente ao seu primeiro Pokémon. Está errado do começo ao fim. O FRASCO ZERO é o equivalente da Master Ball: zero margem de erro, contém qualquer conjunto de regras sem precisar calibrar, e nunca é vendido na Loja da Ordem porque, na lore, vender método é o único tipo de lucro que a Ordem se recusa a fazer. O item inicial de verdade é outra coisa inteira — o Primeiro Registro, que é permanente, vinculado à sua história e nunca pode virar desvio. Eu troquei os dois papéis num documento que ficou como referência por semanas antes de alguém (eu, numa segunda leitura) notar a inversão.

Erro 2: inventei um item que nunca existiu

"Frasco Absoluto" aparece em pelo menos uma versão antiga de anotação minha. Não existe, nunca existiu, e eu não consigo reconstruir de onde tirei o nome — provavelmente confundi com o próprio Frasco Zero numa passagem de rascunho e depois tratei a confusão como se fosse um item de verdade. Ficou registrado como erro corrigido justamente para eu não repetir.

Erro 3: separei duas coisas que o manual já tinha unido

Eu criei, em algum momento, uma distinção entre "Caderno de Campo" e "o analisador de caça" — como se fossem duas telas diferentes do jogo. O manual já resolvia isso: são a mesma coisa. A UI e a lore são uma peça só, não um sistema com dois nomes. Reli o manual, encontrei a linha, e apaguei a distinção que eu tinha inventado sem necessidade.

Erro 4: inventei "Escolas" onde o manual mandava manter "clã"

Essa doeu mais porque eu tinha um argumento razoável na cabeça: "clã" é uma palavra que já existe em outros jogos, então talvez merecesse um nome mais próprio. Mas o manual, no parágrafo sobre o que não renomear, é claro: mecânica de jogo não é propriedade de ninguém, e cada palavra nova é custo de aprendizado cobrado do jogador na porta de entrada. IV, raid, prestígio, market, escrow, guild, clã, XP, level, dungeon, VIP — ficam como estão. Inventar "Escolas" não deixava o jogo mais ESVA. Deixava mais difícil de aprender, por vaidade minha.

No mesmo grupo de erro: cheguei a propor "dungeon", "raid", "Varredura" e "Dossiê" como termos novos, exatamente onde a regra manda não inventar. E propus "Selo" para um conceito que colide, direto, com "frasco selado" — que já existe. Isso não passou de proposta, mas ficou registrado como erro corrigido para não voltar disfarçado de ideia nova daqui a três meses.

O que sobreviveu à revisão

"Caso Aberto" — o termo para lendário/mítico, o caso que a Ordem nunca fechou — foi de fato ratificado. Eu tinha desconfiado dele por causa de uma possível colisão com outro termo, mas a colisão não se sustentou quando fui checar todas as seções que já usavam "Caso Aberto" como se fosse cânone havia tempo. Às vezes o instinto de corrigir também está errado, e a correção certa é não mexer.

O que ainda não tem nome

Sobram cinco conceitos genuinamente sem termo fechado, e eu prefiro admitir isso em público a inventar um nome ruim só para preencher a lacuna. Crédito substitui a moeda básica e tem confiança média — é cognato nos três idiomas (crédito/credit/crédito), que é exatamente a regra que o manual usa para os clãs, então acho que vai ficar. Aval substitui a moeda premium e tem confiança baixa, porque não é cognato em inglês — "aval" não significa nada pra quem só fala inglês, e isso quebra a lógica que fez "Crédito" funcionar. Excedente substitui o conceito de espécime que excede os parâmetros do catálogo, confiança média. E os nomes de duas profissões de coleta ainda estão em aberto — eu já descartei duas propostas anteriores ("Sondagem" e "Horto") porque a mecânica que elas descreviam foi removida do jogo, então o nome ficou sem função para nomear.

Isso não é indecisão por preguiça. É a mesma regra que me fez cortar "Escolas": um nome ruim, publicado cedo, é mais caro de consertar depois do que um espaço em branco marcado como pendente. O léxico fechado do ESVA hoje tem menos palavras inventadas do que a primeira versão dele — e é melhor por causa disso, não apesar disso.